Essa semana eu comecei terapia. Estava adiando isso há tempos, desde que minha médica recomendou no ano passado. E eu, como toda boa adulta, fui empurrando com a barriga. Depois eu vejo. Depois eu resolvo. Depois, depois, depois.
Lá no fundo, acho que meu maior medo era enfrentar o começo de todo processo terapêutico, a pergunta inevitável (e atualmente desconfortável):
Quem é você?
Simples assim. Devastadora assim. Porque eu não sabia responder, e ainda estou buscando essa resposta.
Aquele brilho nos olhos que eu tinha na faculdade, aos poucos foi virando aura de enxaqueca. Aquela menina cheia de planos, sonhos grandes, vontade de mudar pelo menos um pedacinho do mundo, virou mais uma adulta ansiosa. Meu tempo agora é vendido em horas, virou planilhas, documentos, reuniões…
Tudo que eu estudei, tudo que sonhei em construir, foi sendo triturado devagarinho pela lógica de fazer mais, produzir mais, entregar mais. Pra encher mais e mais o bolso de quem já está muito bem, obrigada.
E aí, a pergunta que a psicóloga me fez ficou martelando na minha mente… quem sou eu? Geralmente a gente se resume a trabalho, mas quem sou eu fora dele?
A maior parte do meu tempo, o melhor da minha energia, o auge do meu dia, eu entrego pra ele. Eu temia a pergunta porque eu não sei responder, eu me perdi.
E nesse espaço, no qual eu escrevo, é onde venho tentado me reencontrar. Nesse portal, nessa terapia, nesse recomeço. Procurando a menina que tinha um milhão de ideias, que achava o mundo bonito e possível.
Uma coisa eu sei dizer sobre mim, com todas as letras: eu sou sonhadora. Ah, eu sou… Passo horas e horas dentro da minha própria cabeça, mas agora quero mais!
Em um livro (maravilhoso por sinal) do Ailton Krenak, uma frase me atravessou:
“Nós temos que ter coragem de ser radicalmente vivos, e não ficar barganhando a sobrevivência.“
Radicalmente vivos! Não sobrevivendo, mas vivendo de verdade!
Existe diferença, e o mundo corporativo faz de tudo pra gente esquecer disso.
Krenak não está falando só de floresta. É uma crítica a esse jeito de viver que a gente aceitou como normal: acordar, produzir, consumir, repetir. Trocar nosso tempo por um pedacinho medíocre de existência, e aguentar tudo isso calado.
E eu não quero mais trocar!
Eu aprendi que o sentido da vida não é uma coisa que a gente encontra perdida por aí, feito moeda no chão.
Sentido é coisa que se planta.
Precisa regar, dá trabalho, exige tempo, às vezes não nasce nada na primeira tentativa, e a gente planta de novo mesmo assim.
Esse portal é meu canteiro. Ainda torto, cheio de muda fraca, mas é meu.
Então, se você chegou até aqui: fique à vontade! Se fez sentido pra você, busque também quem você é fora do trabalho… você é muito mais do que um ponto batido.
Se você quer ler A Vida Não é Útil, de Ailton Krenak e refletir mais sobre a nossa relação com a natureza, você pode adquirir a versão física ou para Kindle. Comprando pelo link, você apoia a continuidade do Entre Linhas e Lentes sem pagar nada a mais por isso.
Obra citada: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

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