Sentido não se acha, se planta

2–3 minutos

Essa semana eu comecei terapia. Vinha adiando fazia tempo, desde que minha médica recomendou, lá atrás. E eu, feito toda boa adulta ocupada, fui empurrando com a barriga. Depois eu vejo. Depois eu resolvo. Depois, depois, depois.

Sabe o que eu acho que era, no fundo? Medo daquela pergunta.

Quem é você?

Simples assim. Devastadora assim.

Porque eu não sabia responder. E ainda tô aprendendo.

O trabalho parou de fazer sentido faz tempo. Aquele brilho nos olhos que eu tinha na faculdade, aos poucos foi virando aura de enxaqueca. Aquela menina cheia de planos, de sonhos grandes, de vontade de mudar um pedacinho do mundo, virou mais uma adulta ansiosa e medicada. Meu tempo virou planilha, meta, reunião que podia ser mensagem, mensagem que virou mais reunião.

Tudo que eu estudei, tudo que sonhei em construir, foi sendo triturado devagarinho pela lógica de fazer mais, produzir mais, entregar mais. Pra encher o bolso de quem já tá bem, obrigada.

E aí eu me pego pensando: quem disse que a gente é só isso? Só função, só cargo, só entrega?

Mas também, sinceramente, quem sou eu fora do trabalho? Não sei direito. Porque a maior parte do meu tempo, o melhor da minha energia, o auge do meu dia, eu entrego pra ele.

É isso que eu ando tentando descobrir de novo. Nesse portal, nessa terapia, nesse recomeço meio incerto. Procurando a menina que tinha um milhão de ideias, que achava o mundo bonito e possível.

Uma coisa eu já sei dizer sobre mim, com todas as letras: eu sou sonhadora. Ah, eu sou.

E foi lendo Ailton Krenak que uma frase me atravessou feito faca:

“Nós temos que ter coragem de ser radicalmente vivos, e não ficar barganhando a sobrevivência.”

Radicalmente vivos. Não sobrevivendo, vivendo de verdade. Existe diferença, e o mundo corporativo faz de tudo pra gente esquecer disso.

Krenak não tá falando só de floresta, não. Ele tá cutucando esse jeito de viver que a gente aceitou como normal: acordar, produzir, consumir, repetir. Trocar um pedacinho de existência por aguentar tudo isso calado.

E eu não quero mais trocar.

Sentido, eu aprendi, não é uma coisa que a gente encontra perdida por aí, feito moeda no chão. Sentido é coisa que se planta. Se rega. Dá trabalho, dá tempo, às vezes não nasce nada na primeira tentativa e a gente planta de novo mesmo assim.

Esse portal é meu canteiro. Ainda torto, cheio de muda fraca, mas é meu.

Então, se você chegou até aqui: seja bem vindo. Bora juntos tentar descobrir quem a gente é, quando ninguém tá cobrando entrega nenhuma.

Obra citada: A Vida Não é Útil, de Ailton Krenak

Foto: CK, 2020.