Esse sábado fui para a casa dos meus pais, na roça. Gosto de ficar olhando pro céu à noite. Ele parecia calmo, limpo, uma imensa escuridão pontilhada de estrelas. Para os meus olhos humanos, era só mais uma noite bonita e comum.
Peguei a câmera, ajeitei o tripé, ajustei tudo e deixei o sensor aberto por 15 segundos. Quando a tela acendeu, meu peito deu um nó.
A Via Láctea estava ali. Rasgando o céu numa explosão de poeira dourada, nébulas e incontáveis estrelas. Tudo isso acontecendo acima da minha cabeça o tempo todo, mas minha visão limitada simplesmente não alcançava.
Olhar pra essa imagem na telinha da câmera me fez sentir um grão de areia. Pequena. Quase invisível diante do tamanho do universo.
E quer saber? Tem algo profundamente libertador nisso.
A gente vive correndo, com ansiedade, carregando o peso diário de “dar conta de tudo”. Mas quando você encara o céu desse jeito, percebe que a nossa existência é só um instante.
Somos poeira estelar, em algum lugar desse vasto universo...
Não conseguimos ver tudo a olho nu. E talvez a vida seja exatamente sobre isso: saber que existe uma imensidão de beleza e mistério acontecendo bem na nossa frente, mesmo quando a gente não consegue enxergar.
Como dizia Stephen Hawking, é preciso lembrar de olhar para as estrelas, e não para os próprios pés. Naquela noite, com a câmera na mão, eu finalmente me lembrei.
Desenvolvemos a capacidade de observar, calcular e tentar compreender a própria imensidão do cosmos. Aprendemos a captar, numa tela pequena, uma luz que viajou milhares de anos até chegar aqui.
Existe um paradoxo bonito nisso: somos capazes de tanto, e ainda assim, tão pequenos diante da natureza e do universo em que estamos. Como já dizia Krenak:
Não somos a humanidade que pensamos ser.
Afinal, passamos a vida alimentando as engrenagens de um sistema que cada vez mais nos explora e polui nossa casa. Somos ensinados a moer nosso tempo e nossa saúde para suprir necessidades criadas por uma lógica de produção desenfreada, que nos desconecta de nós mesmos e esgota a Terra.
Mas o céu daquela noite foi como um puxão de orelha pra mim… Diante de tanta imensidão, o sucesso que nos cobram diariamente perde todo o sentido.
Se somos poeira estelar dotada de consciência, nossa grande capacidade não deveria ser gasta em uma corrida cega de destruição e estresse, no que conseguimos produzir ou extrair, mas sim direcionada para o essencial: no cuidado mútuo e na proteção da frágil casa azul que nos acolhe nesse imenso e vasto universo.
Inspirado por trechos de Breves Respostas para Grandes Questões, de Stephen Hawking (Intrínseca, 2018), em tradução livre; e A Vida Não é Útil, de Ailton Krenak (Companhia das Letras, 2020). Comprando pelo link, você apoia a continuidade do Entre Linhas e Lentes sem pagar nada a mais por isso.
Obras citadas: HAWKING, Stephen. Breves respostas para grandes questões. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2018.
KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

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